Total de visualizações de página

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Ética e o trabalho alienado

 

     O trabalho é a categoria fundante do ser social, pois a partir dele e de sua autoconstrução, que o homem passou a se diferir dos outros animais. Porém, esta formação se remete a um processo evolutivo, que dá inicio a constituição da terra, que emerge dos seres inorgânicos, que através de reações químicas, metamorfosearam-se em seres orgânicos, seguindo o mesmo proceder dando origem aos reinos aninais e vegetais, com inúmeras espécies, dentre delas os mamíferos, destacando-se o a família dos primatas, que continuam o processo de evolução, dando origem aos homens sapiens-sapiens, que também evoluíram até chegarem a condição humana, que passaram a responder as necessidades apresentadas, não por puro instinto animal, mas utilizando da teleologia como projeção ideal da finalidade e meio para transpor as causalidades impostas pela natureza, que através do trabalho, o homem pode objetivar, o que antes só existia no nível do pensamento, exteriorizando-o.

     Contudo, quando o homem satisfaz uma necessidade, muitas outras aparecem, constituindo as causalidades postas, exigindo novos conhecimentos e habilidades, que lhe dão mais possibilidades de enfrentamento, fazendo recuar as barreiras naturais, em razão das múltiplas escolhas constituídas pelo homem, a partir da  transformação da natureza que acaba por transformá-lo também.

     É através do trabalho que o homem se torna livre das amarras que o prende a natureza, logo pode expandir sua inteligência, suas habilidades, sua criatividade para além de sua obra, pois seus inventos perpassam sua criação, compondo um acervo da humanidade.

     Porém, o que parecia ser a libertação do homem acaba por denegrir a sua condição humana, quando o trabalho, antes fonte de inspiração e prazer, torna-se produto da ambição de uma classe, que acaba por absorver todo conhecimento, habilidade e  capacidade criativa do trabalhador, processo que se iniciou antes mesmo da instauração do sistema capitalista, ainda na fase da manufatura, onde artesões que detinham todo conhecimento do processo de trabalho, em razão do crescimento do comércio e da impossibilidade da concorrência, acabam por fechar seus negócios e irem trabalhar para os comerciantes, em troca de um salário, perdendo ao longo dos tempos, o controle total da produção, alienando-o da natureza, pois não mais conhece o processo pelo qual ela foi transformada; alienando-o do produto do seu trabalho, porque não o reconhece como tal; alienando-o enquanto classe, pois não reconhece que dentro do processo de trabalho há outros trabalhadores envolvidos e alienando-o da sua condição humana, já que as relações sociais foram reificadas, ou seja, foram comercializadas dentro da realidade capitalista.

     O trabalho alienado se intensifica e complexifica com o modo de produção capitalista, pois dentro dele não existe mais a essência humana, transbordada de peculiaridades do gênero-humano, pois a lógica de mercado aniquilou com a capacidade criativa do homem, ao mesmo tempo em que o aprisiona, dada as suas necessidades básicas de sobrevivência, nesta selva de pedra construída pelo homem em prol do capital predador, que não conformado em apoderar-se dos produtos feitos pelos trabalhadores, acabam por apropriar-se de sua essência, transformando-o em máquina, programado e destinado a produzir riqueza às classes dominantes, que lhe subtrai até seus sonhos, absorto na ideologia que lhes é imposta, muito sutilmente, no cotidiano.

     Isto é tão verdadeiro que uma leitura sem reflexão da música Construção de Chico Buarque esconde as nuanças da categoria da alienação, que aparece em praticamente todos os trechos  da música, mas só se torna evidente com um olhar mais crítico.

     Alguns me chamaram a atenção:

[...] ”E atravessou a rua com seu passo tímido” – Ninguém o percebe e nem ele se integra com a multidão.

[...] “Subiu na contramão como se fosse máquina”. – Não conhece o processo de trabalho na sua totalidade, onde sua força de trabalho é comprada, igualando-a a qualquer outra mercadoria.

[...] “Tijolo por tijolo num desenho lógico”. – trabalho robotizado sem criatividade.

[...] “Morreu na contramão atrapalhando o público”. – Público este que passa na rua e não se reconhece na condição de trabalhador e de ser humano, tal como o operário morto, e que só é percebido quando atrapalha o fluxo normal do dia-a-dia agitado das pessoas, mas que também não se importam com aquele sujeito, que teve a infelicidade de morrer num sábado, atrapalhando um dia de descanso ou de lazer dos outros.

     A música mostra o extremo individualismo nos dias atuais, onde todos vivem por si e para si, desconhecendo todo o processo evolutivo e construído pela humanidade ao longo dos bilhões de anos no planeta Terra, desconsiderando a essência humana, que a grande força motriz, capaz de feitos maravilhosos, que hoje compõe um patrimônio de todos, que só se tornou possível, graças à inteligência e criatividade do homem, como gênero-humano, idealizador, prodigioso, transformador.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postar um comentário